O imprevisível voo de uma ex-lagarta

       Inequivocadamente, exiges bem em dispor aos noviços, que emergem sorumbáticos das catacumbas estudantis, demonstrarem um coeficiente entre desespero e ímpetos mais altivos, de valor menor ou igual a 1. Hoje diz a lisonjeira lagarta, não mais insuspeita de seu destino borboleteante, que o reconhecimento verdadeiro não se atinge por finalidade, mas sim pela extrema vocação ao desencontro.

         Acontece que após ela casar-se com o casulo, e haver uma certa compatibilidade tônica entre os dois substantivos, esse matrimônio torna-se de todo sufocante para ela. Até que um dia, como todos sabem, liberta-se de seu algoz fibroso e repressivo, no desafio do equilibrismo tridimensional, que também nos habituamos a chamar de voo. Assume então, a ex-lagarta, haver tido seu propósito revelado pelo destino, que a natureza de forma alguma lhe havia prenunciado. Diz agora a ex-lagarta que ser borboleta é ser destino, e que ser destino é ser borboleta.

        Porém não fugiu à ex-lagarta, de que certas finalidades contaminarvam desajustados propósitos. Sentiu-se deslocada, sem compreender como poderia estar predestinada a liberdade dos voos inspirados, se esta mesma se manifesta imperativamente? Deveria ela, deleitar os espectadores indo de um ramo a outro, mesmo que o fizesse apenas para alimentar-se, reproduzir-se, defender-se, e defecar? Não era justo que conhecesse por um longo período a dor dos amorfos, do inacasalável sapo de coaxar estridente, e só então, porque quis a natureza em sua função desumanizada, figurasse ela agora entre os mais simbólicos dos seres? Recém empossada, procurava imaginar que nova classe de predadores estariam a sua espreita. Não está mais vulnerável como antes, porém sem dúvida atrai atenções mais indesejadas. Estaria segura se continuasse lagarta? Não fosse sua natureza invertebrada, diria que corria-lhe um frio na espinha.

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