Rua dos Paralelepípedos

           Passa das duas e um senhor com camisa muito bem preservada, adquirida num dos brechós da Vila Madá, olha-me de relance enquanto acerta o passo na rua dos paralelepípedos. A única deste tipo que restou na cidade. Fito-lhe com olhar implacável de devorador de coxinhas, lá de dentro do boteco, tomando um café quente genuinamente brasileiro no copo americano, que na verdade, segundo o que me informou a literatura das redes, originalmente é russo. Ele conclui a travessia firmando as hastes inferiores no chão de relevos que se faz de calçada. Levanta a cabeça até queixar-se na linha contra o sol, sobre cataratas que via a deixá-lo menos ver a luz, e mais o desastre no contraste das coisas. Após este gesto, foi reclinando ainda mais a cabeça, além do que eu especulava ser uma marca de sustentação, transformando-se em ventríloquo, de pescoço sem braço vestido. Mas com a cabeça assim, tão para trás, não reclamava fôlego ou poderia. Pergunto-me se é possível morrer em pé. Tem quem morra duro que nem pau, paralisado, catatônico… porém sempre se encontram sentados ou deitados. E preservar, dessa maneira, um equilíbrio que mal verdadeiramente se experimenta em vida, palestrando e perecendo somente com a chegada da morte? Que pode ser isso, afinal? E o velho não se mexe… já liquidei os salgados da vitrine, e do café só não bebi o último gole, que sempre deixo pro santo. Penso em me aproximar e cutucá-lo de leve, pois se estiver morto não quero que caia, e se cair não sei se seguro. Chamo o camarada que me atende e mostro a ele o senhor. Ele aposta que está bem vivo, e sem fazer rodeios arremessa uma tampa de garrafa buscando acertá-lo. A falta de pontaria faz com que ela passe perto de um bípede voador que se assusta, levanta voo e acaba pousando no ombro do bípede siamês senil, alvo de toda a nossa especulação. O peso do animal parece se alinhar perfeitamente ao centro de massa do corpo, deixando-o ainda mais rijo. O pombo volta-se com seu bico para o bico do homem, que está totalmente distendido. Vai introduzindo a cabeça dentro dele, passa da gengiva e bica profundamente em direção a úvula. No mesmo instante, o peito do velho responde como um air-bag acionado, sua cabeça tomba para frente e lança a dentadura ao chão como se fosse uma catapulta. Ela está toda partida, mas não sei dizer se é devido ao impacto ou pela bicada do pássaro, que deve estar agora a alguns quarteirões de distância. O velho dá inúmeras arfadas, ao mesmo tempo em que expele rios de saliva por tosses e cuspidas. Retém oxigênio suficiente apenas para pronunciar alguns xingamentos, recolhe a dentadura aos pedaços, coloca no bolso e retoma o caminho mais vacilante do que chegou. Penso em segui-lo, oferecendo qualquer ajuda, mas deixo essa ideia para livrá-lo da sombras do meu testemunho, e talvez, um fantasma de zombaria. O dia passa e o atendente fica mais meu amigo, vendo graça na situação. A gente aproveita porque não sabe se haverá no tempo da nossa velhice, tal como houve antes e depois da mocidade daquele senhor, um café bem brasileiro, um copo quase americano, brechós pela Vila Madá, botecos, salgados de vitrine, tampinhas de metal, pombos de cidade, campainhas uvulares, e principalmente aquela rua, que se não era bem a nossa cara, sempre foi a dos paralelepípedos.

Peruca

Preciosos folículos que não podem sequer
Garantir o sustento de uma resma capilar
Alicerça esses fios e afugenta os mosquitos
Que se lhes veem omissos já querem pousar

Testemunha sois do zelo que tive
Recobrindo de graça e loção hidratante
Shampoo anti-caspa, pomada impermeabilizante
Jaz eterno em memória firme como um implante

Sou grato pelo substrato
Mesmo que agora profano
Fostes mesmo incomparável

Vida longa aos que restaram
Do arbustivo suvaco
Ao encrespado pubiano

Solene

          É estranho. Ultimamente o tempo não é para mim nada mais que um lençol. Compreendo-o apreendido entre o oscilante estender-se na cama e seu arremate final. Após isso, imagens universais percorrem o manto em projeção seriada e particular. Ao pé da cama, observo Solene com condolências por estar a par do que nos é ímpar. Tento anotar outro evento despojado de eventualidades, para saber, de fato, onde estou. Sinto algo impedindo um movimento de consciência e aguardo.

          Logo, na transparência revela-se uma cama, tão convidativa que chego a temê-la necessária. Desvio o olhar e vejo um rádio-relógio. São 19h01, quinta-feira, 13 de março de 1991. O sonho se despede tal como veio, disperso e distante, ensaiando uma travessia por onde ninguém fora chamado.

          Enxergo do alto, fios e veículos que cruzam ruas próximas. Tenho pernas, penas, frágeis e ásperas, pequenas garras e um bico ao qual não atribuo ineditismo. Não consigo olhar para cima mas posso sentir o sol que me atravessa no substrato freudiano. Raios golpeiam pálpebras no soco que faz me ver melhor. Hora de acordar.

Melancia

      Nesse mundo de likes e outras reações que penumbram matrizes verdadeiras. Nesse mundo de redes, algoritmos e outros promoventes ejaculatórios opinativos histericamente estéreis. Tudo tão gratuito. Só nos leva tempo, que não custa nada por ser mesmo imprecificável. O sábio e o tolo desta vez unidos sob uma mesma convicção, pelos diferentes motivos. Fazendo melhor quem preocupa se chove mais pra burro ou pra camelo.

      Qual o problema de problematizar na problemática do problema? Buscando por repostas que foge ao movimento dos planetas, das massas de ar e tudo o que diz respeito ao magnífico mistério que cercam nossas melancias, que nada mais são que caixas d’água biologicamente aprimoradas. Nos extremos tudo se condensa, mas nos trópicos há melancia. Textura saborosa de fibras e água, que se gostam e nos fazem gostá-las mais ainda.

     Sem que eu use de “meu deus” nas interjeições, pergunto: onde tudo isso vai dar? A compulsória formulação antes que deixemos de existir é de rolar de rir. Sim e tanto que parecem haver questões herdadas por loucos sem mecenas. Que vem daí não haver estímulo maior à felicidade que sempre esperar pelo pior. Segue o mistério da vida e também do mel rimar com céu, seu e meu. 

O imprevisível voo de uma ex-lagarta

       Inequivocadamente, exiges bem em dispor aos noviços, que emergem sorumbáticos das catacumbas estudantis, demonstrarem um coeficiente entre desespero e ímpetos mais altivos, de valor menor ou igual a 1. Hoje diz a lisonjeira lagarta, não mais insuspeita de seu destino borboleteante, que o reconhecimento verdadeiro não se atinge por finalidade, mas sim pela extrema vocação ao desencontro.

         Acontece que após ela casar-se com o casulo, e haver uma certa compatibilidade tônica entre os dois substantivos, esse matrimônio torna-se de todo sufocante para ela. Até que um dia, como todos sabem, liberta-se de seu algoz fibroso e repressivo, no desafio do equilibrismo tridimensional, que também nos habituamos a chamar de voo. Assume então, a ex-lagarta, haver tido seu propósito revelado pelo destino, que a natureza de forma alguma lhe havia prenunciado. Diz agora a ex-lagarta que ser borboleta é ser destino, e que ser destino é ser borboleta.

        Porém não fugiu à ex-lagarta, de que certas finalidades contaminarvam desajustados propósitos. Sentiu-se deslocada, sem compreender como poderia estar predestinada a liberdade dos voos inspirados, se esta mesma se manifesta imperativamente? Deveria ela, deleitar os espectadores indo de um ramo a outro, mesmo que o fizesse apenas para alimentar-se, reproduzir-se, defender-se, e defecar? Não era justo que conhecesse por um longo período a dor dos amorfos, do inacasalável sapo de coaxar estridente, e só então, porque quis a natureza em sua função desumanizada, figurasse ela agora entre os mais simbólicos dos seres? Recém empossada, procurava imaginar que nova classe de predadores estariam a sua espreita. Não está mais vulnerável como antes, porém sem dúvida atrai atenções mais indesejadas. Estaria segura se continuasse lagarta? Não fosse sua natureza invertebrada, diria que corria-lhe um frio na espinha.

A República Black Friday

            Estava eu, absorto em estudos matinais litúrgicos, quando o livro apontou um paralelo vivaz entre o cenário político de um Brasil ainda varonil e a transição romana de Monarquia para República. Conta o livro, com detalhes que aqui suprimo, sobre a aversão pós-república da aristocracia romana ao assunto monárquico. O motivo noticiado, seriam os desmandos, a tirania e as convulsões de governabilidade que sofria o Estado, a cada rei “louco” que tomava o poder ou assassinado era.

          A constituição da sociedade romana em seus primórdios era bem diferente àquela da passagem a República. Por exemplo, não havia grandes distinções de poder econômico. Através de pesquisas arqueológicas, constata-se a evolução desse cenário que revela em suas origens, uma população com arranjo semelhante ao tribal até uma em que a sociedade se complexifica, e na qual chefes de Estados e membros da aristocracia eram sepultados em túmulos ricamente ornamentados. Nesse último momento, aqueles que não tinham posses e dependiam daqueles que tinham para sua proteção, numa espécie de proto-constituição vassala, levavam a alcunha de ” proletarii “, dado que seus únicos bens seriam os filhos ( proles ).

         O argumento em defesa da república estaria acertado, não fosse o viés populista dos últimos reis da Era monárquica, concedendo certos benefícios às classes mais baixas, tal como o direito ao voto aos estrangeiros em domínio romano. Temerosa, a aristocracia não queria correr o risco de perder certos privilégios e poder. Mas os que se sentem desprivilegiados estão sempre ansiosos por outra sorte. Vale lembrar que a estrutura de poder romana, começava na célula familiar, onde o homem mais velho centralizava a figura legisladora e religiosa, podendo vender ou matar membros da família conforme sua vontade,  sendo esse poder passados ao primogênito masculino de sua linhagem. Já a troca de reis, não se dava nessa lógica, não era hereditária, e passava pelo crivo do povo em última instância.

        Bem, essa é uma história de 2525 anos. Na voz de nosso presidente, ressoa branda e sordidamente a vontade de uma aristocracia que compra, literalmente, o ideal parlamentarista em detrimento da República presidencialista. Não digo que seja melhor, nem pior esse sistema, mas parece que a motivação não tem relação com o valor democrático. Penso, o que fariam os romanos munidos de escutas telefônicas? Sabiamente, a história não trabalha com a variável “se”. Mas se o “se” se resguarda somente ao futuro, suponho que a reação instintiva a ideias contrárias ao parlamentarismo, seja a mesma que sofreram as monárquicas durante a república romana, onde esses “traidores” eram sumariamente conduzidos até suas miseráveis criptas.