Solene

          É estranho. Ultimamente o tempo não é para mim nada mais que um lençol. Compreendo-o apreendido entre o oscilante estender-se na cama e seu arremate final. Após isso, imagens universais percorrem o manto em projeção seriada e particular. Ao pé da cama, observo Solene com condolências por estar a par do que nos é ímpar. Tento anotar outro evento despojado de eventualidades, para saber, de fato, onde estou. Sinto algo impedindo um movimento de consciência e aguardo.

          Logo, na transparência revela-se uma cama, tão convidativa que chego a temê-la necessária. Desvio o olhar e vejo um rádio-relógio. São 19h01, quinta-feira, 13 de março de 1991. O sonho se despede tal como veio, disperso e distante, ensaiando uma travessia por onde ninguém foi chamado.

          Vejo do alto fios e veículos que cruzam ruas próximas, tenho pernas, penas, frágeis e ásperas, pequenas garras e um bico ao qual não atribuo grande ineditismo. Não consigo olhar para cima mas posso sentir o sol que me queima em substrato freudiano.

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