A República Black Friday

            Estava eu, absorto em estudos matinais litúrgicos, quando o livro apontou um paralelo vivaz entre o cenário político de um Brasil ainda varonil e a transição romana de Monarquia para República. Conta o livro, com detalhes que aqui suprimo, sobre a aversão pós-república da aristocracia romana ao assunto monárquico. O motivo noticiado, seriam os desmandos, a tirania e as convulsões de governabilidade que sofria o Estado, a cada rei “louco” que tomava o poder ou assassinado era.

          A constituição da sociedade romana em seus primórdios era bem diferente àquela da passagem a República. Por exemplo, não havia grandes distinções de poder econômico. Através de pesquisas arqueológicas, constata-se a evolução desse cenário que revela em suas origens, uma população com arranjo semelhante ao tribal até uma em que a sociedade se complexifica, e na qual chefes de Estados e membros da aristocracia eram sepultados em túmulos ricamente ornamentados. Nesse último momento, aqueles que não tinham posses e dependiam daqueles que tinham para sua proteção, numa espécie de proto-constituição vassala, levavam a alcunha de ” proletarii “, dado que seus únicos bens seriam os filhos ( proles ).

         O argumento em defesa da república estaria acertado, não fosse o viés populista dos últimos reis da Era monárquica, concedendo certos benefícios às classes mais baixas, tal como o direito ao voto aos estrangeiros em domínio romano. Temerosa, a aristocracia não queria correr o risco de perder certos privilégios e poder. Mas os que se sentem desprivilegiados estão sempre ansiosos por outra sorte. Vale lembrar que a estrutura de poder romana, começava na célula familiar, onde o homem mais velho centralizava a figura legisladora e religiosa, podendo vender ou matar membros da família conforme sua vontade,  sendo esse poder passados ao primogênito masculino de sua linhagem. Já a troca de reis, não se dava nessa lógica, não era hereditária, e passava pelo crivo do povo em última instância.

        Bem, essa é uma história de 2525 anos. Na voz de nosso presidente, ressoa branda e sordidamente a vontade de uma aristocracia que compra, literalmente, o ideal parlamentarista em detrimento da República presidencialista. Não digo que seja melhor, nem pior esse sistema, mas parece que a motivação não tem relação com o valor democrático. Penso, o que fariam os romanos munidos de escutas telefônicas? Sabiamente, a história não trabalha com a variável “se”. Mas se o “se” se resguarda somente ao futuro, suponho que a reação instintiva a ideias contrárias ao parlamentarismo, seja a mesma que sofreram as monárquicas durante a república romana, onde esses “traidores” eram sumariamente conduzidos até suas miseráveis criptas.

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